Hoje publicamos este interessante artigo sobre roubos de portáteis Apple. O texto, publicado originalmente no Expresso Online, é da autoria do jornalista Paulo Querido a quem agradecemos a gentileza de nos ter autorizado a publicação neste blog.

O roubo de portáteis Apple segue a norma dos assaltos associados à toxicodependência. Ultimamente nota-se, porém, a diminuição de furtos em automóveis, aumentando os assaltos a residências.

É quase um ritual associado à compra de um computador Apple, pelo que também eu acabei inscrito na mailing-list O correio dos outros, actualmente com mais de 3800 subscritores. No início dava atenção às questões mais técnicas, mas depressa (muito depressa, aliás) me adaptei ao meu MacBook Pro, uma máquina a todos os títulos recomendável e que passei a recomendar, pelo que passei a ler por alto.

Mas uma coisa acabou por me chamar a atenção, devido à frequência com que apareciam notas relacionadas na lista: os roubos de material Apple, hoje concentrados em portáteis como o meu e em iPods.

Naturalmente, passei a tratar com mais cuidado a minha pasta com o portátil, que costumava deixar descuidadamente no banco de trás. Agora, vai comigo para onde eu for, nem no porta-bagagens o deixo. Tenho aqui tudo, isto é o meu escritório, a minha biblioteca e o meu arquivo.

E decidi matar a curiosidade. Enviei três perguntas a Pedro Aniceto, o homem que mantém pacientemente a lista. Pedro Aniceto, que faz a versão local da revista dirigida a utilizadores de Macs iCreate e mantém o blog Cão com pulgas , deu três respostas surpreendentes e completas.


Desde que utilizo um Mac tenho reparado que os Macs são muito roubados (nunca mais deixei a pasta do portátil no carro). Existe alguma estatística ou elementos informativos sobre o número de Macs roubados e a sua relação com os roubos de outras marcas?

A matéria é complexa e todas as minhas respostas estão condicionadas por duas premissas: a) baseio-me em nove anos de lista (um ambiente “fechado” e que por vezes reflecte características muito próprias desse facto e b) a falta de elementos e estatísticas oficiais.

Os Mac não são mais roubados que os outros… Poderá parecer-lhe que sim, mas isso deve-se ao facto de receber os alertas dos roubos dentro da comunidade da lista (3800 pessoas, sendo que ainda propago os alertas de roubo de pessoas que não sendo membros da lista os informam a revendedores que mos enviam a mim…). Acredito que, se recebêssemos também os alertas de roubo de máquinas não Mac, as nossas caixas de correio estariam permanentemente atafulhadas de alertas desse tipo…

Não facilitar é (ou devia ser) a palavra de ordem. Pense no volume de objectos tecnológicos que hoje transportamos connosco. Telefones, PDAs, computadores, discos, câmaras web, máquinas fotográficas, câmaras de vídeo, navegadores GPS. É um mar de coisas que tendemos a “deixar” nos carros.

Costumo brincar com os meus amigos e conhecidos e dizer que a possibilidade de eu encontrar algo valioso num carro escolhido ao acaso na rua é muitíssimo grande. Com toda esta tralha com que operamos no dia a dia, a possibilidade de eu deixar algo no carro (aquilo que pesa 1 kg de manhã, parece pesar vários ao final do dia…) que venha a ser roubado, é demasiado grande para ser ignorada.

Da minha experiência (e de acordo com algumas conversas que vou tendo com agentes de autoridade), há coisas gritantes e muito pouco racionais. Ter um suporte de GPS no vidro do carro é um belo “cartaz” a dizer “O aparelho de GPS está aqui no porta luvas à espera de que o venhas buscar…”. Depois de aberto (tal como os melões!), o automóvel pode ser um belo petisco tecnológico para os assaltantes…

Tenho constatado que o número de roubos em carros tem diminuído, para, infelizmente, ser ultrapassado pelo número de assaltos a residências. Não são números oficiais, são reflexo dos casos que me vão sendo comunicados.

Não tenho números oficiais, desconheço mesmo se a polícia os fornece de modo tão detalhado. Os últimos que vi referiam-se apenas às “grandes famílias” penais de furto qualificado (foi um daqueles relatórios anuais de criminalidade).


Consigo compreender porque é que os Macs são tão apetecíveis. Tenho curiosidade de saber é qual o destino dos produtos roubados: ficam no país, vão para fora, são cortados às postas, aparecem na Feira da Ladra, o que acontece?

Não creio que haja roubos mais ou menos “apetecíveis” em termos de computadores furtados. Com muito poucas excepções este tipo de roubos parece estar relacionado com a toxicodependência e o valor de comercialização/revenda de material furtado tem um valor baixíssimo. É fácil encontrar à venda material por cerca de 200 vezes menos que o seu real valor. Dos casos que segui de perto o material destina-se à realização rápida de liquidez e o ladrão (ou receptador) desconhece muitas vezes o que tem em mãos. É normal (e isso é preocupante) que o vendedor seja menor ou muito jovem.

Como “hub” deste tipo de comunicação já por diversas vezes vesti a pele de interessado e me pude aperceber do desconhecimento técnico: “Pá, emprestaram-me isto mas não me deram a password”, ou “Um amigo tem para vender uma coisa que não é Windows”…

É fácil para um receptador ou vendedor de material “quente” “limpar” a instalação de um sistema Windows, já não é tão simples fazê-lo a um Mac, acabando muitas vezes por recorrerem a “tipos que sabem de Mac”. É frequente ser contactado por este tipo de gente, dada a minha visibilidade em matérias Mac… Os canais Mac de IRC são também pasto fértil de detecções de material roubado. Sendo um micro cosmos bastante “fechado”, são-me comunicadas muitas vezes “aparições” de vendedores desconhecidos. Aquilo que faço sempre que isso se proporciona é combinar com o vendedor um encontro e proporcionar a quem denuncia a possibilidade de um tête-è-tête com o vendedor. Tem proporcionado algumas recuperações.


Tendo em conta a sua experiência, qual é a percentagem de aparelhos que voltam às mãos do dono, por acção policial ou outra?

Nunca fiz contas, nem tenciono fazê-las, ao número de recuperações. Quando um alerta de roubo é emitido, é-o para milhares de utilizadores entre os quais se encontram os Centros de Assistência Autorizados. É aqui que muitas vezes são detectados computadores roubados. A maioria deles consulta os alertas quando a máquina é alvo de intervenção e tenho conhecimento de muitas situações em que perante a informação de que a máquina tem um alerta de roubo o cliente “desaparece” sendo o legítimo proprietário informado posteriormente.